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Quando se fala em série policial, o que vêm ao imaginário das pessoas são cenas de ação, tiros, a polícia sempre “salvando o dia” com um estilo procedural onde cada episódio vai abordar um caso, um crime, etc. Esse estilo de série foi bastante consolidado antigamente na TV e ainda existem obras com esse estilo tais como CSI e Law & Order. Diferente de antes, com certeza hoje em dia esse não é o estilo preferido pela maioria dos telespectadores.

Em junho de 2002 foi exibido o primeiro episódio de The Wire na HBO, uma série policial criada pelo roteirista David Simon, um ex-repórter policial, auxiliado também pelo ex-policial e também roteirista, Ed Burns. Porém, diferente do que se imagina de uma série policial, The Wire vai contra todos esses “princípios” e/ou estereótipos e introduz na TV um estilo único onde a polícia é apenas um mero elemento na história que envolve várias camadas da sociedade e instituições sociais que se passam pela política, impressa, sindicatos e educação, tudo isso em meio ao tráfico de drogas em Baltimore.

A proposta da série é bastante simples mas ao longo das 5 temporadas é explorado o quão profunda e realista é um determinado local. Esse local é Baltimore, cidade de Maryland (Estados Unidos). Há um consenso sobre a série que praticamente todas as pessoas que se propõem a discuti-la é que a obra não se trata de determinados personagens, eles são mero elementos, o foco, o personagem principal de The Wire é Baltimore. David Simon também produziu e escreveu outras obras que tratam de determinados lugares, é o caso de Treme (2010-2013) que aborda Nova Orleans após os acontecimentos do Furacão Katrina e também The Deuce (2017-2019) sobre a ascensão da indústria pornográfica e da epidemia de AIDS em Nova York nos anos 70 e 80.

A primeira temporada introduz a polícia pelo ponto de vista do detetive Jimmy McNulty (Dominic West) tentando montar uma equipe especial dentro da polícia de Baltimore para colocar escutas em telefones públicos para conter o tráfico de drogas na cidade, telefones públicos porque muito do tempo de tela é focado em ruas e esquinas onde os traficantes passam maior parte do tempo. Muitos dos traficantes são jovens e crianças. Em 2002 tal tecnologia de escutas era vista como moderna e poderia ser um salto para a polícia nesse “jogo” (esse termo é usado na série como analogia ao que ocorre em Baltimore). Porém, isso não é simples de ser feito, há muitas disputas burocráticas que sofrem influência política, jurídica e também dos chefes que controlam o tráfico que movimentam o “jogo”.

“It’s all in the game, yo!” – Omar Little

Foto: Reprodução/HBO

Um personagem que merece destaque à parte é Omar Little. Um assaltante que se destoava do resto dentro do “jogo”. Ele assaltava os traficantes “sem poderes” das ruas sempre empunhando uma arma grande e assobiando ao caminhar colocando medo em seus alvos. Omar é gay assumido, o que em 2002 já quebrava estereótipos que vemos muito em hoje em obras que abordam o homosexualismo mas constroem personagens rasos e superficiais.

As temporadas seguintes cada uma aborda uma determinada instituição de Baltimore enquanto o tráfico na disputa pelo “jogo” continua com a polícia tentando ter mais controle sobre as escutas.

A segunda temporada aborda o sindicalismo contextualizado no porto marítimo de Baltimore, que é um dos grandes pólos econômicos do estado de Maryland. Um dos grandes dilemas dessa temporada é sobre o comando do tráfico utilizar o porto em prol do tráfico. E nesta temporada vemos novos personagens que é uma característica em cada nova temporada enquanto os personagens antigos também continuam na história. Esse é só um dos grandes pontos positivos da série, conseguir ter uma gama grande de personagens mas mesmo assim conseguir aprofundá-los não só jogá-los na história. Um pouco diferente da temporada anterior, onde o foco é o lado oeste de Baltimore (onde a população em sua maioria é negra), nesta segunda vemos a outra costa da cidade onde parte da população são de famílias imigrantes.

Na terceira temporada temos o ponto de vista da prefeitura a partir de um vereador e como as esferas da política e polícia estão conectadas e como isso reflete na população local. Nessa temporada a política é o grande foco. Mas, como em toda a série, o tráfico continua lá sempre no “jogo” e dessa vez a cidade está em meio à batalha pelo controle das esquinas de dois grandes chefes do tráfico.

Uma curiosidade interessante dessa temporada é que os produtores utilizaram pessoas da cidade de Baltimore para atuarem na série ao invés de atores profissionais. The Wire é altamente elogiada pelo seu realismo e grandes atuações do elenco. Outra curiosidade: a série também revelou Idris Elba, que hoje em dia é um dos mais renomados atores da TV e cinema.

A quarta temporada e talvez a mais chocante de todas traz um elenco jovem, composto por crianças e adolescentes. Dessa vez a série aborda a educação pública de Baltimore, a escola é o novo cenário. Chocante porque nessa temporada vemos a relação dos jovens com o tráfico, o realismo proposto por The Wire nos mostra um envolvimento que dificilmente vemos em outra obra da TV. Por serem quase em sua totalidade pobres como a população daquela parte da cidade, “trabalhar” nas esquinas sendo capachos dos chefes do tráfico acaba sendo a saída fácil para ganharem dinheiro.

Foto: Reprodução/HBO

Uma das reviravoltas mais marcantes é ver um pré-adolescente em condições de pobreza que tentou em boa parte da temporada ser contra em se tornar um traficante mesmo com todo o seu círculo de amigos naquele meio, ceder lentamente às drogas porque se tornou sua única saída.

A quinta e última temporada trata a relação da imprensa com todas as demais esferas institucionais da sociedade e como o que é veiculado afeta diretamente tudo mais que cerca Baltimore. A série acaba mas Baltimore continua, o jogo ainda está sendo jogado.

The Wire é constantemente lembrada pelos especialistas em TV como uma das melhores, senão, a melhor série já criada na história da TV. Marcou a 3ª era de ouro da TV na HBO junto com The Sopranos. Infelizmente, a série não teve uma grande audiência apesar de ser extremamente aclamada, o seu estilo único, cru e realista, que talvez para uma parte das pessoas é algo lento de se assistir, não cativou tanto a grande audiência da HBO.

Finalizando com outra curiosidade: é a série favorita do ex-presidente norte-americano, Barack Obama, que inclusive entrevistou o criador de The Wire (isso mesmo, o Obama entrevistou David Simon, e não ao contrário – é possível assistir aqui). E o personagem favorito dele é o Omar (assim como é o favorito da maioria que assistiu a série).

Foto: Reprodução YouTube/The Obama White House

Extra: matéria do jornal O Globo sobre a série e como a obra é influente no estudo de ciências sociais:

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